Carma-Cola
Conheço um garoto indiano que costumava ouvir rock. Ficou religioso. Encontrou um guru.
Um dia o devoto estava com as mãos para o alto em súplica quando o guru lhe disse:
"Seu relógio não está certo. Tire e me dê".
O garoto assim fez. O guru examinou o relógio, depois o devolveu. O garoto já ia colocá-lo de volta no pulso quando notou que o relógio mudara. Agora não só estava certo como também informava a hora de Nova York e Londres, tinha um mecanismo para registrar a profundidade da água e mostrava a data.
O devoto ficou pasmo.
"Como fez isso?", perguntou ao guru.
"Quer mesmo saber?", disse o Mestre.
"Sim, claro, swámi, quero", exclamou o garoto.
"Olhe a inscrição do outro lado", aconselhou o Mestre.
O garoto virou o maravilhoso e alterado relógio e encontrou gravadas as seguintes palavras:
Indústrias Guru Ltda.
(Pág. 17)
No ashram, o guru era reconhecidamente Deus. Alguns dos internos do ashram aspiravam a se tornar Deus. Um deles, um suíço rechonchudo de cinco anos de idade, nascera Deus. Os devotos se orgulhavam muito dele.
"Deus o chama Buda", anunciaram. "Ele é uma alma muito elevada."
Um diabrete louro maltrapilho estava correndo pela trilha com um bando de companheiros de diversas nacionalidades. Pareciam, como boas crianças, preocupados em catar pedaços de barbante e outros detritos na estrada e enfiá-los nos bolsos. A certa altura, a tropa toda parou e começou a brigar por um pneu de bicicleta abandonado.
Tentei, além de olhar, ver o pequeno Mestre que vinha em nossa direção, enquanto um acólito extasiado contava sua história.
"Ele não nasceu aqui, sabe. Vem da Suíça. Quando era um bebê de dois anos em Zurique, viu uma fotografia de Deus e prostrou-se diante dela. Disse ao pai: ‘Você não é meu papai. O homem daquela foto é meu papai’.ficou pedindo para ir ao encontro de seu papai, até que os pais o trouxeram diretamente para cá. Para Puna. Estávamos aqui quando ele teve seu primeiro darshan com Deus. Atirou-se aos pés de Deus gritando ‘Papai! Papai!’. Foi tão comovente. Nós todos nos sentimos realmente humildes por estar presentes."
Uma leve onda de náusea me atravessou o corpo. Sol demais, pensei, e me obriguei a concentrar-me.
"Aí, Deus olhou para ele e sorriu. Dava para sentir a alta energia passando entre os dois. Ele pôs as mãos nos ombros do menino e disse suavemente, ‘Bem-vindo, Iluminado". Então anunciou, ‘Buda chegou. Esta criança é Sidarta’."
Buda e seus amigos estavam agora entre nós, clamando por doces. Fizeram-se as apresentações formais entre Buda e eu.
"De onde você vem?", perguntou-me Buda.
"Bombaim", respondi.
"Pode me comprar umas armas e uns soldados quando voltar?",pediu avidamente o Mestre Iluminado.
Comecei a rir sem parar. Os outros fizeram o mesmo. Quando nos acalmamos, viraram-se para mim e perguntaram :
"Não é simplesmente lindo?"
Nem sempre você pode contar com seu senso de ridículo quando todo mundo em volta está rindo também.
(Pág. 36-37)
Um ashram na Índia costuma transplantar terapias californianas populares para celas forradas de couro no porão de suas instalações. O criador de uma das terapias de toque mais avançadas veio da Califórnia visitar o ashram e verificar pessoalmente o tipo de sucesso que suas técnicas de grupo de encontro estavam tendo num ambiente religioso indiano.
(Pág. 44, 1o.)
Um conhecido meu voltou para os gurus antes que os cientistas conseguissem localizar o túmulo. Ele teve o privilégio de testemunhar seu Mestre ressuscitar um homem.
"Não há dúvida quanto a isso. O Mestre tem poderes sobrenaturais. Eu o vi fazer literalmente centenas de milagres. Está sempre materializando coisas para as pessoas. Anéis, relógios, cinza sagrada. O que você quiser, se ele estiver se sentindo bem, ele materializa."
O homem, embora americano, morou na Índia durante algum tempo e estava, portanto, apenas intermitentemente sujeito àqueles ataques de apreensão que acometem os estrangeiros na presença do sobrenatural. Era diferente de um grupo de diplomatas com quem certa vez compartilhei o prazer da companhia de seu guru.
Os diplomatas estavam sentados em sofás especialmente arranjados, com seus óculos escuros Dior, maletas Hermès de couro de crocodilo seguras por luvas brancas, ou joelhos elegantemente cruzados em ternos escuros da Saville Row, tremendo antecipadamente enquanto o guru materializava um medalhão incrustado de pedras para um bebê recém-nascido que estava nos braços dos pais, que, como todos os outros indianos, estavam sentados no chão.
Por fim, o guru levantou-se de sua poltrona coberta de pele de leopardo e caminhou serenamente sobre as pétalas de rosa que demarcavam seu caminho, na direção dos membros do corpo diplomático. Alguns deles tiraram os óculos escuros em sinal de respeito.
O guru parou diante da esposa do embaixador de um país mediterrâneo e perguntou:
"Como está a perna?".
A mulher olhou-o sem entender.
"Perna! Perna!", disse o Mestre, apontando para os joelhos dela. A mulher puxou a saia para baixo rapidamente, achando que tivesse ofendido a bem conhecida insistência do guru quanto à modéstia feminina. O Mestre sorriu.
"Não dói mais?"
"Nunca doeu", disse a esposa do embaixador friamente, e retirou-se da lista dos que buscam milagres. O Mestre olhou para ela com astúcia.
"Perna ficará melhor agora."
O guru ergueu suas mãos solenemente sobre os diplomatas sentados e caminhou na direção de um embaixador idoso, sentado em esplendor solitário numa requintada cadeira de sala de jantar. O embaixador empertigou-se, o guru agigantou-se sobre ele, girando as mãos erguidas em pequenos movimentos circulares.
"Quer pó sagrado?", perguntou o guru num tom informal.
O diplomata idoso encolheu-se na cadeira. Do nada, o guru tirou um punhado de cinzas e empurrou na direção do velho.
"Aqui. Coma. Duas vezes ao dia. Vai se sentir bem." O embaixador estava num daqueles dilemas que os diplomatas enfrentam com freqüência nos países do Terceiro Mundo. Lutou para mostrar-se à altura da ocasião. Com relutância, estendeu uma mão esquerda levemente trêmula e muita bem tratada. Os indianos ficaram chocados com o insulto. Na tensão, o velho embaixador esquecera de que a mão esquerda é usada para abluções e considerada impura por muitos conservadores. O guru se inclinou e pegou gentilmente a mão direita do homem, onde enfiou a cinza sagrada.
O diplomata abriu a boca para agradecer. O endiabrado guru aproveitou a oportunidade para soltar os últimos grãos de cinza na boca aberta do velho.
"Engula, filho, engula. Pó sagrado. Você ficará bem."
(Pág. 53-54)
Um americano ficou sabendo do controle sexual de um saddhu durante sua estadia em Benares. O americano era um roteirista que trocara o luxo de Hollywood pela Índia para lutar contra seu incontrolável impulso sexual. Estava cansado de sexo. Estava cansado da regularidade monótona com que seu corpo o exigia. Estava cansado do simbolismo sexual, das starlets de corpo dourado, de doubles entendres e de obsessões fálicas. Decidira abandonar tudo como quem deixa de fumar. Mas não achava que tivesse suficiente força de caráter. Apresentou seu dilema para um saddhu que meditava nas margens do Ganges.
O sol se punha sobre o rio sagrado. Era a hora do aarti, quando os deuses são louvados com fogo e incenso. Em toda Benares, os devotos tocavam sinos diante de altares familiares ou nos pátios dos grandes templos. O americano ouviu os sinos e observou a fumaça de uma pira funeral distante, subindo para o céu carmesim. Debatia consigo mesmo qual seria a melhor maneira de começar uma conversa com o saddhu.
"Com licença, senhor", disse finalmente. "Fala inglês?"
O saddhu, que estava enterrado na lama até a cintura, virou o torso nu para olhar o americano.
"Falo. Em tempos passados, fui doutor em medicina."
"Verdade? Médico praticante?", perguntou o americano com entusiasmo.
"Por que está ficando tão excitado?", perguntou o saddhu com frieza. "Há algo estranho em cuidar do corpo humano?". Virou o torso para a posição original.
O americano lutou para reconquistar o interesse do saddhu.
"Não quis ofender, meu senhor. De forma alguma. Perguntei porque tenho um problema que gostaria de discutir com um homem santo hindu. O senhor é o primeiro saddhu com quem falo na vida."
O homem santo continuou imóvel, rigidamente de costas para o americano.
"Não. O senhor não me entendeu", disse o americano com ansiedade. "Veja, meu problema tem a ver com o corpo. O fato de que o senhor é médico, além de homem santo - não está vendo? Era meu destino que eu falasse com o senhor. Deve ser carma."
O saddhu se empertigou ao ouvir a última frase do americano.
"Não use palavras que não entende", disse com severidade. "Você será amaldiçoado se o fizer."
"Diabos." O americano deu de ombros. "Já estou condenado. Condenado a passar o resto dos meus dias tentando trepar e o resto de minhas noites trepando."
Houve um breve silêncio. O saddhu dirigiu a pergunta ao rio. "Do que este homem está falando?"
"Estou falando de sexo, doutor homem santo. Não lembra o que é?"
"Sexo? Então é isso o que perturba você", disse o saddhu ao rio.
"Sim, é isso o que me perturba", confirmou o americano.
O saddhu se ergueu lentamente. Sacudiu a lama do corpo e caminhou na direção do americano.
"Você quer obter um certo controle sobre seu corpo?"
O americano assentiu em silêncio. O saddhu sentou-se na posição de lótus perto do americano. O sol desaparecera, deixando a pele do saddhu vermelha com os reflexos do entardecer. O homem santo falou, numa espécie de encantamento.
"O desejo é a morada de toda confusão, meu filho. Ele embota a razão. Produz resposta imoderada. O corpo fica exausto desnecessariamente. Observe-me e aprenda."
E o faquir nu revelou-se em phallus rampant. Aplicou então a mão esquerda coberta de cinzas para aliviar-se e continuou discursando.
"Por acaso você é da América? Notei que essas coisas são uma obsessão naquele país. Mas não se preocupe. Seu problema não é raro. No mundo inteiro, as pessoas estão escravizadas pelo sexo. Essa escravidão leva a suas queixas infantis. Veja a condição excitada de meu corpo. Veja os movimentos de minha mão esquerda. Estou aqui, sentado calmamente, me concentrando em seus problemas."
O americano estava paralisado de incredulidade e constrangimento. O saddhu continuou.
"Aprenda pelo menos isso na Índia, meu filho. A carne é o único campo de batalha. As guerras são ganhas pela alma. O homem maduro busca compreender sua natureza até compreender a Natureza."
E o americano, pasmo, viu-se banhado pelo despreocupado controle sexual do saddhu.
Mais tarde, em Los Angeles, o americano cita sua experiência como o tipo do milagre que se pode encontrar na Índia.
(Pág. 62-64)
Com justiça, o indiano chama seu país de Rishi Bhoomi, a Terra dos Sábios. Para todo aquele que busca, há um sábio destinado a ensinar-lhe a verdadeira iluminação. Existem até mesmo mestres para aqueles céticos que são da opinião de que os Olhos não são o caminho, e que preferem receber o milagre pela boca. A Índia tem provado, mais de uma vez, que o exame oral também é um caminho para o conhecimento.
Ao seguir sua boca, um aristocrata inglês descobriu recentemente uma verdade espantosa sobre a Índia. O aristocrata ouvira falar de um guru numa aldeia remota, nas profundezas de Andhra Pradesh, notável não somente por suas luzes como também por sua urina, que se transformava diariamente em água perfumada de rosas. Depois de uma jornada difícil, o aristocrata chegou à aldeia remota correta.
Uma vez que poucos forasteiros haviam visitado o guru, ofereceram cortesmente ao inglês um assento na primeira fila da meditação matinal, quando o guru se aliviava da primeira micção miraculosa. O aristocrata observou com interesse distante, mas polido, que havia uma multidão de indianos em torno da tenda do Mestre, esperando que o guru completasse suas abluções. Para surpresa do inglês, a multidão voltou-se subitamente para ele e indicou por gestos que deveria ir até a barraca. Não querendo parecer arrogante, foi até a barraca, onde a mão do guru abriu a cortina e o convidou a entrar.
Dentro da barraca o inglês descobriu, pelos sinais e gestos do Sábio, que teria o privilégio de levar o fulgor do guru aos devotos que esperavam do lado de fora. Quando o vaso quente foi posto em suas mãos, ele cheirou o conteúdo.
"O cheiro", observou ele mais tarde, "era de urina comum."
Não obstante, levou o líquido precioso para a multidão. Os devotos o receberam com aplausos bem-educados. Em seguida, cresceu a intensidade das saudações. Ele se virou para ver o que estava acontecendo. O alarido de congratulação estava ficando ensurdecedor. Quando finalmente conseguiu decifrar os sinais urgentes que lhe faziam os assistentes do guru, o aristocrata percebeu que o Mestre estava permitindo - num gesto de magnanimidade sem precedentes - que ele, um inglês, bebesse todo o conteúdo do vaso.
"Tinha um gosto incrivelmente parecido com urina comum", observou o aristocrata depois.
(Pág. 85-1)
Há outro guru que estimula a fé de seus seguidores num estádio de futebol de Delhi prometendo uma prova da existência de Deus. O homem tem sido visto realizando milagres às pencas, de tal forma que as pessoas estão predispostas a lhe conceder insight sobrenatural na lógica e na semântica. As massas esperam resfolegantes.
O guru lhes informa, por meio de um tradutor simultâneo, que Deus existe porque se você olhar no Dicionário de Inglês de Oxford, na letra G, acabará encontrando a palavra God. Triunfal, o guru ergue seus braços curtos abençoando a platéia perplexa mas crente, sentada em fileiras apertadas no vasto campo onde, seis horas antes, atletas suados correram atrás de uma bola, e anuncia:
"Está no dicionário. Aqueles que duvidam da existência do divino, que procurem a prova no dicionário. Como poderia o que não existe estar no dicionário?".
O número de adeptos desse guru se tornou tão grande nos últimos anos que ele tem agora de dar sua bênção de um helicóptero. No seu aniversário, hinos de louvor irrompem das gargantas de um milhão de crentes terrenos, dirigidos à pequena pinta cor de laranja de certeza acenando para eles de uma máquina voadora.
(Pág. 107)
(MEHTA, Gita. Carma-cola: o marketing do Oriente místico. São Paulo.Companhia das Letras. 1999.)